segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Isto é sobre sábado

Eu estava atrasada, ‘eu sempre estou atrasada’. Chuva, capuz na cabeça. Pego o ônibus e torço para não estar errada. Desço. Olho aquele lugar como quem procura uma criança perdida num shopping. Acho. Sorrio. Relaxo.
Como que um guia turístico mostro todos os defeitos da cidade, uma forma de refletir minha desesperança e de assustá-lo para que nunca mais volte. Ele continua andando invés de recuar. A cada passo para mais perto da minha casa era um medo mais forte que me tomava, não sei se pelo medo das palavras de minha mãe ou pelas que ecoavam na minha cabeça.
Faço o almoço. O ignoro por completo. Como se não houvesse visita, como se eu estivesse com tanta vergonha que se ele não existisse seria mais fácil. Minha mãe tinha dito que iria sair antes dele chegar, o que tornou tudo mais doloroso quando percebi que ela não tinha ido. Muitas coisas ruins sobre mim ouvi naquela hora. Quase todas verdade, o que dói muito.
Após o almoço e muito música boa, vamos aos filmes. Eu nunca vou entender Donnie Darko. Não conseguia me concentrar no que Frank falava enquanto estava sendo chupada.
Eu gozei.
Eu estava tão excitado, só conseguia pensar em como seria a penetração. Eu o pressionei. E esqueci que ele tinha problemas com pressão, causados pela ansiedade. Ele broxou. Ele se afastou. Sua mente não estava mais ali. Ela não voltou mais pelo resto da visita.
Assistimos um filme ruim e dois bons. Minha mente estava a mil. Chorei, desabei e comi três pedaços gigantes de torta enfiados na boca com raiva. Uma ótima maneira de causar um boa impressão no terceiro 'encontro’. Se ele já estava longe com minha crise a mente dele chegou em casa antes mesmo dele ter vestido as calças para sair da minha. Ele achou que era pelo que tinha feito, ou pelo que não tinha conseguido fazer. Mas não. Eu lembrei do meu ex namorado e de como tudo aquilo parecia tão familiar. Me dei conta que eu estava repetindo hábitos, como quem substitui somente os atores, não a cena. Fiz a gente deitar ao contrário na cama para mudar o retrato e pensar assim que talvez tivesse alterado a cena também. Opps! Mãos nos seios, meus seios, e muita energia fluindo entre os corpos. 'Eu quero, não pense que não. Eu só não aguento isso de novo’ eu disse, piorando tudo.
Depois de mais um Tarantino, nós fomos embora. Fugindo, antes que minha mãe chegasse. Ela não foi receptiva sã, imagina na sua versão bêbada.
Andamos em silêncio por um tempo, pensando em toda a culpa que cada um acumulou, até chegar na praça, onde sentamos em degraus molhados e começamos a conversar. A primeiro momento eu não queria ter aquela conversa. 
Tom de adeus e choro. 
Conversamos sobre nossos medos e sobre o futuro daquilo ali. ‘A gente pode estar num relacionamento’ e 'Eu não digo isso’ não ajudam muito. Ainda mais se forem seguidos de desabafos tão difíceis dele expressar. Duas pessoas tentando não machucar o outro em suas próprias tentativas de se machucar. Duas não, quatro. Meu medo por elas e como elas vão reagir me toma. O medo de não saber lidar. O medo de me envolver em um barco afundando.
Ele me acalma.
Ele corre pegar o último ônibus. Eu vou embora. Mando mensagens de forma a não deixá-lo mal pelo acontecido, sabia que ainda estava pensando naquilo, peço para me avisar caso fosse embora da minha vida. Celular vibra e um “eu não vou sumir :)” aparece.
E eu (acho que) estou num relacionamento poliafetivo agora.

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