terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Padrão Vadio

Resolvi escrever sobre uma coisa que vem me incomodando e sei que muitas pessoas a minha volta também. Então, como eu já disse aqui, eu tenho 105 quilos e eu sou vadia. MAS NINGUÉM ACREDITA. Eu sei, eu sei, “ninguém tem nada com isso” e também “não precisa provar nada para ninguém”. O negócio é de que o fato delas não acreditarem está relacionado aqueles números ali em cima. Portanto, esse texto aqui é sobre como existe um certo padrão para tudo, até para ser uma vadia.


Eu sei que as pessoas que vão ler são, em sua maioria, desconstruídas e também sabem que o ideal vadio não corresponde a realidade, mas vamos fingir que não e pensar um pouco como aquelas pessoas que acreditam fielmente nele para responder a algumas questões. Então, vamos lá.


Quando você pensa no termo “vadia” qual é a imagem formada na sua cabeça?
Boa parte da população citaria exemplos de alguma personagem de telenovela que provoca homens (exatamente, no sentido heterosexual) com as suas roupas curtas e perfeitamente ajustadas a um corpo escultural (magro ou estilo “panicat”), com cabelos compridos até a altura da bunda (e que bunda né?), super maquiada e incapazes de ter um relacionamento de verdade ou de deixar “em paz” os relacionamentos a sua volta.
Pense quais dessas são vadias:
  • A moça da propaganda de absorvente ou amaciante (estereotipada), que tem roupas ‘comportadas’, sem decotes e no comprimento “adequado”, que demonstra ser muito delicadas e quando os homens olham ela é para ver a sua beleza e sentir perfume, ou a moça da propaganda de cerveja (extremamente machista), a que está num bar cheio de homens com um calção aparecendo a polpa da bunda e com um decote que é maior que o tamanho da blusa (mesmo se elas estiverem dentro da geladeira), que sempre aparece com uma cara de safada e “pronta para tudo” com aqueles caras, que é desejada do ínicio ao fim e referida pelas partes do seu corpo.
  • Uma mãe de família, com uns quarenta anos, com os quilos a mais que o casamento, já acabado, proporcionou e que tem uma vida, aparentemente, resumida aos filhos e ao trabalho ou um mulher, também com seus quarenta, sem filhos e marido, que vai a academia todo dia com roupas “sensuais” e tem os finais de semana regados a danças e álcool.
Mesmo se eu não estivesse detalhando elas tanto assim, a resposta seria, quase sempre, nas duas opções dadas a segunda moça.


Enfim, eu não estou dentro dessa imagem construída de o que é uma vadia. Eu sou gorda, atualmente careca, me visto com roupas largas da sessão masculina (tipo um mano), não tenho belos peitos (ainda rsrs) nem o tal corpo escultural e não me relaciono só com homens -
eu sou pansexual, na realidade. Essa última característica é a única que faz com que eu seja “considerada”, pois há um grande preconceito com pessoas pans, a maior parte das pessoas acham que isso é um código para promiscuidade e para não se controlar com qualquer ser por perto, mas não lembram que na verdade significa que eu tenho atração por pessoas independente do gênero e somente isso. Aí quando a pessoa que está por perto não sabe deste detalhe e eu falo algo do tipo “fazer o que? Eu sou vadia mesmo!” a reação é mais ou menos igual a quando se vai a cozinha a noite e acha que viu algo na janela ou quando você dá like em uma pessoa horrível no app de pegação sem querer. É uma reação de estranhamento (às vezes inconsciente, mas igualmente problemática) ao fato de eu não estar dentro deste padrão de “como ser vadia”.


Como eu disse, isso não incomoda só a mim. Muitas amigas gordas reclamam sobre isso, como se ser vadia dependesse de um determinado corpo e não de como você se sente ou do quanto gosta de ser livre. Como se fosse impossível você “conseguir” ser vadia tendo determinado tamanho\peso, isso porque nenhum homem (ou ninguém, no meu caso) iria querer comer uma pessoa gorda. E eu sei que isso seria algo para não nos importarmos, já que é preconceito que sofremos em muitos outros setores, muito mais importantes que o sexual (como ir a médicos, entrar em academias, conseguir empregos). Mas o problema é que vejo muitas manas, que lutam contra a opressão e contra os padrões incorporados na nossa sociedade, reproduzindo isso. As mesmas que vão na Marcha ou que postam afirmações militantes todos os dias nos olham com o mesmo estranhamento. E isso é, meu amor, além de reprodução de machismo, gordofobia.
Não deveríamos sentir a necessidade de provar que podemos ou o quanto nos amamos, até porque nem sempre nós temos certeza disso. Ser gorda é um processo interno gigantesco de aceitação ao próprio corpo, de negação de valores sociais pré estabelecidos e não algo externo de afirmação vazia de uma beleza que não se acredita ter. E mesmo a mais autoconfiante, a mais aceitada, a mais contente com a sua condição acorda, às vezes, com vontade de quebrar o espelho. E sabe o porque? Porque em todos esses pequenos gestos mostram-nos o contrário do que estamos construindo em nós.
Com tudo isso expulso do meu peito, eu queria deixar dois recados. Você que nunca sentiu essa sensação que eu descrevi pense se você não é a outra pessoa, a que encara, a que quase ri e, se for, eu espero que trabalhe para desconstruir isso em você mesma. Se você é a pessoa que sentiu, a que sabe exatamente do que eu estou falando, CALMA, VOCÊ NÃO ESTÁ SOZINHA, existem outras pessoas que passam por isso (algumas nem estão tão fora do padrão assim e sofrem também) e acima de tudo, continue trabalhando isso dentro de você para que ninguém consiga tirar seu amor próprio nem sua vontade de continuar lutando e sendo a pessoa MARAVILHOSA e VADIA que você é.

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